Drica Bitarello

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Fogo Vermelho - trecho para degusta??o

Posted by Drica Bitarello on June 2, 2010 at 12:00 PM

Fogo Vermelho é o segundo livro da saga Radegund, previsto para sair em 1º de julho de 2010. Ele conta as aventuras da dupla Radegund e Mark após os acontecimentos na Terra Santa, em 1188, e também trás grandes revelações sobre o misterioso passado da guerreira.

 



 

Normandia, 1178

O inverno, naquele ano, estava mais rigoroso. Ou talvez ela estivesse sentindo mais frio do que o de costume pelo fato de estar sozinha no mundo, expulsa de seu lar, vagando como um bichinho selvagem pelas florestas, evitando o contato com as pessoas.

O peito se apertou de novo, mais do que o estômago vazio. A lembrança da mãe sentada diante da lareira com um bordado no colo, do pai e de seu cão de caça deitado à frente do fogo, e do cheiro da carne que assava num espeto, assaltou-a com uma força tão grande que chegou a recuar um passo. Mais do que o medo de estar só, e de morrer de frio e de fome, havia a solidão. Era um preço alto demais, era um custo demasiado grande, um fardo por demais pesado para seus ombros de menina.

Sobrevivência. Era preciso sobreviver.

Apertou com força o volume metido nas dobras do vestido roto e fino demais para suportar o frio; a Bíblia de sua família. Enxergou, - sem sequer precisar vê-lo, ou tocá-lo de verdade - o pedaço de tecido azul, e a raposa que parecia sempre rir dela.

Sobrevivência e vingança. Uma alimentava a outra. As duas a mantinham viva.

- Um dia... - murmurou.

Irritada consigo mesma, passou a mão pelo rosto sujo de terra, secando as lágrimas. Retomou a vigilância, espreitando de novo os fundos da taverna. A mulher entrara fazia pouco, mas não fechara de todo a porta, como deveria fazer num frio daqueles. Radegund sorriu.

Havia uma semana que ela e a taverneira estavam naquela espécie de jogo. Tudo começara quando ela fora vista roubando um filão de pão. A mulher gritara por ela, e a perseguira pelo quintal. Apavorada, temendo ser apanhada e mandada para os lugares onde deixavam os órfãos - e que sabia serem antros de perversidade - ela simplesmente fugira de novo para a floresta. Ninguém a caçara. E ela acabara voltando aos fundos da taverna, em busca de comida e de roubar um agasalho. Suas poucas roupas já estavam em farrapos. Porém, não se atrevia sequer a procurar abrigo numa igreja. O mundo era muito arriscado para uma menina sozinha.

Por muito tempo ela ficou vigiando. Estática, as roupas encardidas mesclando-se ao marrom das árvores tingidas pelo inverno. O céu se tornou escuro, e o frio mais intenso. Pôs as mãos enroladas em luvas furadas diante da boca e soprou nelas o ar quente, numa patética tentativa de se aquecer. Imaginou se haveria um fogo aceso na cozinha, e se haveria como ficar diante dele apenas pelo tempo suficiente para fazê-la parar de tiritar de frio..

Quando a lua crescente, uma fina fatia de luz apenas, despontou no céu, ela soube que era tempo de se mexer. Ignorou as dores nos membros, depois de tanta imobilidade, e atravessou o quintal. Pé ante pé, caminhou até a porta dos fundos da taverna. Àquela hora não havia mais movimento algum. Os fregueses, mesmo os mais tardios, já teriam se retirado e o casal de proprietários estaria dormindo.

Sua mão tocou a madeira áspera e empurrou a porta devagar. Meteu a cabeça, e logo em seguida o corpo, pela fresta estreita. Ajustou a visão ao ambiente escuro e aspirou o cheiro de carne cozida e cerveja. Sua boca se encheu d’água, e as lembranças de sua mãe e sua casa lhe trouxeram novamente lágrimas aos olhos. Respirou fundo e tentou não chorar mais uma vez. De nada lhe adiantaria. Lágrimas não encheriam sua barriga, nem lhe aqueceriam o corpo.

Estendeu a mão para o filão de pão deixado sobre a mesa, no mesmo instante em que uma lâmpada de óleo foi acesa.

- Boa noite, meu caro visitante!

A voz carregada do sotaque provinciano da mulher ribombou como um trovão dentro da cozinha. Assustada, Radegund deixou cair a trouxa que segurava. Seus olhos se arregalaram e encarou a mulher. Em sua cabeça só havia um objetivo. Fugir.

A taverneira logo notou sua intenção, bloqueando a porta com o próprio corpo. E para seu espanto, sorriu e apontou-lhe a cadeira.

- Vamos, criança. Sente-se e coma. Não lhe farei mal algum.

Radegund ergueu uma das sobrancelhas, desconfiada. A mulher espiou-a com mais atenção, estreitando os olhos escuros.

- Ora essa... Mas... você é uma menina!

- Deixe-me sair, dona – pediu, lutando para manter a voz firme. Demonstrar medo era um erro, já havia aprendido – só quero um pedaço de seu pão. Juro que não vim roubar suas moedas.

- Nada disso – a mulher se adiantou, fazendo-a se sentir ainda mais acuada.

Era grisalha e opulenta. Mas não era uma figura ameaçadora, muito pelo contrário. Tinha um olhar simpático e parecia até mesmo que em seu rosto havia um meio sorriso. Ela, porém, vivendo segregada de contato humano na maior parte do tempo, habituara-se a desconfiança, fazendo dela sua natureza e seu meio de sobrevivência.

Recuou, pronta para fugir, ao passo que a taverneira a surpreendia, dizendo com um sorriso gentil.

- Sente-se, por favor, menina. Lá fora está frio demais. Aqui tenho uma sopa quente e uma enxerga perto da lareira. Além disso – deliberadamente deu-lhe as costas, desafiando-a a fugir – há outros perigos que espreitam uma mocinha pelo mundo afora. – ela olhou de novo para o rostinho sujo de pó e os cabelos emaranhados presos numa trança mal feita – Qual é o seu nome? O meu é Lina. Eu e meu marido Pierre somos os donos da taverna.

Radegund estreitou os olhos, observando a mulher. Havia qualquer coisa nela que inspirava confiança, mesmo que isso fosse contra todas as precauções dentro das quais se habituara a viver nos últimos tempos. E foi com surpresa até para si mesma que se apanhou revelando-lhe seu nome de batismo.

- Sou Radegund.

- E o que faz perdida pelo mundo, jovem Radegund? – a mulher chamada Lina lhe estendeu um prato de sopa e um pedaço de pão, que foram vorazmente atacados.

De boca cheia, Radegund respondeu.

- Minha família morreu.

A piedade transbordou dos olhos da mulher. Ela se sentou num banco, do outro lado da mesa e ficou observando-a comer, até que perguntou.

- Não tem onde ficar, nenhum lugar melhor do que a floresta para ir?

Radegund fez que não com a cabeça, enquanto engolia o máximo de comida que podia. A taverneira pensou por um tempo. Coçou a cabeça e depois a encarou.

- Sabe, estamos precisando de uma ajudante. - explicou, dando a impressão de que o que oferecia era algo sem importância, uma barganha; como se fosse ela, Radegund, que estivesse lhe fazendo um favor, e não o contrário - Meus ossos doem no inverno e não dou conta de todo serviço. Ofereço casa, comida e um quarto aquecido no sótão.

- Por quê? – ela franziu o cenho, temerosa. Já vira muita coisa desde que perdera sua casa, tanta perversidade, tanta maldade! Sabia que ninguém fazia uma oferta daquelas sem querer nada em troca. E se a mulher a quisesse para vendê-la a homens que gostavam de usar meninas?

- Uma mão lava a outra, mocinha. - a mulher se apressou em dizer, imaginando para onde os pensamentos da garota enveredavam - Você precisa de um lugar para dormir. Eu preciso de alguém para me ajudar. E então, o que me diz? Temos um acordo?

Radegund pensou por um bom tempo, enquanto devorava mais um prato de sopa. Não era oportunidade que se jogasse fora. E se, no fim das contas, as coisas não corressem conforme o prometido, ela fugiria. Decidida, ergueu os olhos do prato e respondeu.

- Feito.

 

 


Categories: Sobre os livros da Saga

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