Drica Bitarello

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"A Cruz e o Crescente" - degustacao

Posted by Drica Bitarello on February 19, 2011 at 4:58 PM

Olá, pessoas!


Tenho andado ocupada nas últimas semanas, tanto com as obrigações de "gente normal", quanto com os projetos literários. Mas,mesmo assim, arranjei um tempinho para vir aqui e postar para vocês o início do terceiro livro da Saga Radegund, aquele que desvendará o mistério das origens de Mark al-Bakkar.Tenho trabalhado bastante no texto e também nas referências históricas para poder deixar o livro "redondinho".

Posso dizer, já de antemão, que "A Cruz e o Crescente" é o divisor de águas da Saga. Um livro com muitas reviravoltas, novos personagens, revelações surpreendentes e muita, muita emoção. Depois dele, nada mais será como antes!


Espero que curtam o prólogo.

BJS


Drica Bitarello


“Meu olhar agora se perde na distância, tentando ver a costa através da luz desbotada do amanhecer. Para minha tristeza e angústia, a praia diminui de tamanho, encolhendo sob meus olhos, da mesma forma que meu coração se encolhe dentro do peito. Minha amada, e a criança da qual jamais verei o rosto, ficaram lá, do outro lado do Mediterrâneo, muito além do meu alcance.

Os marinheiros passam ao meu lado e me olham, respeitosos, parecendo até um pouco solidários com meu sofrimento. O Capitão me deu alguns tapinhas amistosos nas costas, e depois, num gesto de fidalguia, afastou-se em silêncio ao notar que havia lágrimas em meus olhos.

Eu deveria estar feliz, pois deixo para trás as intrigas, o sangue derramado e o sol escaldante desta terra que parece jamais ter sido tocada pela paz verdadeira, para ver de novo o verde e as montanhas da minha Draig Fawr. No entanto, tudo o que sinto, em lugar da alegria de voltar para casa, é uma saudade imensa da mulher que amo. E se não fosse pelo risco de vê-la assassinada, junto com o filho que ela carrega no ventre, eu juro que nadaria de volta até a praia. Se fosse apenas minha vida, eu a entregaria de bom grado, apenas para poder passar mais um nascer do sol ao lado dela...”

Das anotações de Anwyn Ap Iowerth, na primavera do ano de Nosso Senhor de 1157.

 

Palestina,1158

Ahmaed apertou uma das contas do masbaha entre os dedos calejados ao ouvir mais um grito de Aziza. Olhou por entre as frestas da treliça, mas nada viu lá fora, além da escuridão da madrugada. Do cômodo alto, onde guardava seus preciosos instrumentos astronômicos, suas cartas do céu e as caras lentes montadas sobre os suportes de cobre, que viam muito mais longe do que os olhos de qualquer mortal, enxergava-se, durante o dia, Djebel az-Zeitun. Lá, Isa, o al-Masih, teria ascendido aos céus, quarenta dias após Sua Ressurreição, segundo acreditavam os cristãos. Para um Crente como ele, aquela doutrina soava estapafúrdia. Estava escrito no Livro que Isa não morrera, mas fora arrebatado aos céus por Alá, o Clemente e Misericordioso, onde continuava vivo, a espera do Juízo Final. Às vezes a ignorância daqueles pálidos bárbaros do norte era digna de pena...

O súbito silêncio da filha fez com que Ahmaed retornasse de suas reflexões e desviasse o olhar para dentro da casa. Fitou longamente a porta, tomado de angústia e considerou se deveria se arriscar a sofrer a ira da parteira e socorrer sua menina enquanto ela se esforçava para dar à luz o filho bastardo do cavaleiro cristão. Na quietude da noite, aquela calmaria sinistra pareceu durar horas, e não apenas alguns segundos. E por um átimo de tempo passou pela mente de Ahmaed o pensamento profano de que talvez fosse melhor que sua filha, sua joia adorada, morresse durante o parto, poupando-o da vergonha, dos olhares maldosos e dos subornos que calariam a língua do cádi. Outro grito cortou a noite e só então, ao exalar seu alívio, foi que Ahmaed percebeu que havia retido o fôlego, tamanha era a sensação de perda e de vazio que a simples sugestão da morte da filha lhe causara. Aziza estava viva. Logo, sucedendo o grito, ele o ouviu. Um som forte para uma criatura mal chegada ao mundo insensato dos homens. O choro de uma criança sadia.

- Amo! - a criada esbaforida e suada atravessou a cortina que ocultava o portal - Amo! É um varão, seu neto é varão!

Ahmaed mal percebeu que sorria. Mal notou que lágrimas desciam de seus olhos amendoados, se perdendo na barba grisalha. Como se a mulher não estivesse ali, voltou-se para a treliça e murmurou.

- Meu neto. Que Alá, o Grandioso, seja louvado.

Por trás do monte das Oliveiras, o céu, eivado de nuvens escuras que pareciam rasgões num tecido, estava tingido de vermelho. E embora o ar estivesse parado,  o astrônomo estremeceu, como se envolvido por uma brisa fria.

- Oh, Clemente! - implorou - Tende piedade desta criança...

 

Gales, 1191

Mark se ajeitou sobre sela.  Inclinou-se para o lado, praguejando contra a dor em suas costas, ao mesmo tempo em que alcançava o odre. Soltou a tampa e tomou um generoso gole de água fresca. Saciada a sede, prendeu o odre novamente a sela e esticou os braços para o alto, espreguiçando-se, ativando a circulação depois de horas de cavalgada ininterrupta. Acariciou a crina de Baco e olhou em volta, deslumbrado com a paisagem.

Verde. Para onde quer que olhasse, o verde dominava tudo, sendo interrompido aqui e ali pelo cinzento das rochas. Gales era realmente uma terra deslumbrante, e absolutamente diferente da Palestina.

Passara por enormes cachoeiras, rios caudalosos, florestas intermináveis. Tudo era tão verde e fértil, tão distante das paisagens quase sempre áridas, ainda que belas, do lugar onde nascera!

Esfregou os olhos, espantando o cansaço, e suspirou. Sua busca estava quase no fim. Percorrera um longo caminho de investigações, e gastara uma pequena fortuna, até chegar ali, prestes a encontrar o homem que o gerara, mas que jamais fora seu pai. O único pai que conhecera fora o avô. E de certa forma era grato por este fato, pois Ahmaed Ibn-Farouk, além de homem digno e cumpridor das tradições, fora também um grande sábio. Generoso, passara para o único neto a maior parte de seus ensinamentos e de seus elevados princípios.

Pensar no avô fez o coração de Mark se apertar de saudade e tristeza. Quando deixara sua casa, num arroubo de raiva, ainda um rapazinho, não imaginara os rumos que sua vida tomaria.

Inspirou profundamente ao se recordar da inconsequência de sua juventude.

Categories: Sobre os livros da Saga

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1 Comment

Reply CLEIDE
2:04 PM on October 10, 2013 
Olá, como vai??

Queria saber se você tem previsão para o lançamento de A Cruz e o Crescente?

Bjks

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